
Como eu crio os desenhos de tatuagem – Parte 1: Introdução
- Diego Jolly
- 3 de mai. de 2025
- 4 min de leitura
Se tem algo que aprendi há doze anos, quando ainda testava minhas primeiras tatuagens nos amigos, é que tatuagem, acima de tudo, é conexão.
Naquela época, eu ainda estava aprendendo a tatuar. Sempre desenhei, desde criança, e meus amigos sabiam disso. Acompanharam minha trajetória artística e, como sempre há os mais ousados no grupo, alguns se ofereceram para serem minhas cobaias, mesmo sabendo que eu estava só começando.
Essas pessoas, de certa forma, são parte essencial da história que construo até hoje. Se não fossem elas, talvez eu nem estivesse aqui. Ou talvez estivesse, mas de outro jeito, porque tudo foi acontecendo naturalmente, como um fluxo contínuo da vida.
Naqueles dias, cada tatuagem era quase um evento. Eu ainda não tinha estúdio — meses depois fui trabalhar no estúdio do Bisa — e meu “ateliê improvisado” era a varanda da casa da minha avó.
Ali, entre conversas, risadas e o varal repleto de cuecas do meu avô roubando a cena, surgiram momentos únicos. A varanda virou o cenário de muitas tardes criativas. Tatuei muitas pessoas assim. As tatuagens não ficavam boas, claro, mas eu também não cobrava por elas. Em troca, ganhei algo muito mais valioso: experiência e conexões humanas genuínas.
A conexão era real e profunda. As pessoas confiavam em mim, mesmo sabendo que eu ainda não tinha a técnica refinada. Essa confiança vinha de longe, cultivada ao longo dos anos.
Meus primeiros clientes foram amigos com quem eu já tinha intimidade. Eles me conheciam, gostavam de mim. Foi algo natural. Nem precisei “convencer” ninguém, só o fato de eu ter uma maquininha de tatuagem — naquele contexto, algo raro — já era suficiente para atrair pessoas que eu nem imaginava.
Hoje, olhando para o presente, em abril completamos três anos morando e atendendo em Florianópolis. Antes disso, foram quase dez anos tatuando em Maringá, minha cidade natal, onde estudei, fiz faculdade e construí um nome. Minha agenda era tão cheia que precisei de um secretário para me ajudar com as mensagens. Eu era reconhecido na rua, chamado para marcar horários. Minha essência percorreu as conversas da cidade, e isso criou uma rede de conexão forte, de boca em boca, de amigo para amigo.
Florianópolis é encantadora. Conheci pessoas incríveis, uma escola maravilhosa para meu filho, moramos perto da praia. Aqui, continuo conectando minha arte a novos olhares, novos mundos.
Mas percebo que hoje, o cenário da comunicação mudou bastante. A forma de criar conexão também está mudando. As redes sociais tornaram-se o principal meio de divulgação e, com isso, surgiu um mercado profissionalizado de criação de conteúdo: vídeos bem editados, roteiros estratégicos, frases de impacto, formatos que viralizam. Muitas vezes, tudo isso nos leva a seguir um modelo pronto, como se a conexão pudesse ser fabricada em série.
Vejo tatuadores que antes só postavam sua arte agora também divulgam receitas de bolo, vídeos engraçados, coreografias, falando de moda, de viagens, de tudo. Isso me fez questionar: será que, para manter a conexão com o público, eu também preciso ser um “personagem de internet”?
Sinceramente, essa não é minha vibe. Pelo menos por enquanto, não tenho vontade de fazer isso. E, na prática, acredito que para gerar conexão, muitas vezes, basta sermos quem somos, com verdade, com alma, com essência. Sem disfarces.
Essa energia verdadeira — que vem do nosso centro, da nossa alma, a ligação com o “sol central” — ressoa nas pessoas que se conectam conosco. Mesmo que de forma sutil e invisível, ela age. Claro, devemos estudar e entender os novos formatos de comunicação, mas sem perder a autenticidade. Sem deixar de sermos inteiros.
Trilhar esse caminho com verdade é também um processo de lapidação pessoal. A comunicação com o mundo começa quando nos conhecemos melhor, quando aprimoramos nossa arte, nossa entrega, nossa escuta.
Ser artista é viver um estilo de vida onde cada detalhe da natureza pode se tornar inspiração. Somos portais entre o mundo invisível das ideias e a realidade. Criar é permitir que algo maior flua por nós.
Em breve, vou compartilhar aqui no blog algumas práticas mentais que uso para criar os desenhos das minhas tatuagens. Serão quatro partes:
O Chamado da Intuição: Convite para o Passeio da Alma
Arquitetura Mental: A Técnica como Portal Criativo
Memórias que Moldam: A Experiência como Mestre Silencioso
Lapidar o Espírito: A Arte como Rito de Evolução
Para encerrar, deixo um conselho: sejamos leves. O que é para ser, acontece com fluidez, sem forçar. Que possamos viver como um rio que segue seu curso até o mar — com confiança no fluxo natural das coisas. Estamos em constante descoberta, e aquilo que estudamos hoje pode ser a chave para uma ideia amanhã. Assim como na sequência de Fibonacci: o presente somado ao passado recente cria o futuro.
Somos eternos aprendizes e descobridores. E a arte, no fim das contas, é a expressão mais honesta da alma — uma ponte entre o que sentimos e o que oferecemos ao mundo.
Até a próxima.




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