Como a Tatuagem Chegou até mim
- Diego Jolly
- 4 de abr. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 28 de mar.
A forma como a arte da tatuagem, esse misterioso ofício de riscar a pele com símbolos da alma, se apresentou em minha vida foi semelhante a como aconteceram as coisas mais importantes que me transformaram: chegou de mansinho, foi se aproximando lentamente, permaneceu por algum tempo ao meu redor e, eu, sempre com a cabeça nas nuvens, demorei a perceber que se tratava de algo capaz de mudar completamente o rumo da minha história.
Foi por volta de 2006, ainda na adolescência (numa época em que sequer existiam Instagram, WhatsApp ou Facebook) que um amigo me convidou para acompanhá-lo a uma sessão de tatuagem. Eu, empolgado com a oportunidade de conhecer um tatuador, queria entender quem era aquela figura, como pensava, quais eram suas visões de mundo. E, de fato, aquele tatuador vivia em uma realidade bastante distinta daquela à qual eu estava habituado. Conversamos brevemente sobre isso, sem grandes aprofundamentos, mas era evidente que ele, assim como outros tatuadores que conheci posteriormente, levava a vida de forma mais… “brisada”, por assim dizer.
Naqueles tempos, em Maringá, cidade onde nasci e cresci, poucas pessoas se tatuavam (pelo menos não existia tantos estúdios como hoje ) .A maioria das artes era escolhida ali mesmo, na hora, a partir de revistas de tatuagem disponíveis nos estúdios, que, sob o olhar atual, estavam longe de representar espaços artísticos. Na verdade, o ato de tatuar-se parecia mais uma forma de dizer à sociedade: “Olhem, eu tenho uma tatuagem!”
Com o tempo, o número de interessados foi crescendo. Não era caro fazer uma tatuagem, e era relativamente fácil encontrar alguém com o símbolo do infinito no pulso, uma estrela ou cereja no ombro, ou uma pimentinha tatuada sabe-se lá onde. Ter um tribal no braço era motivo de admiração entre os mais jovens, quase um título de coragem, mas visto com desconfiança por gerações anteriores. Muitas mães sequer cogitavam aceitar que suas filhas namorassem alguém tatuado, a não ser, é claro, aquelas mães com uma simpática bruxinha tatuada nas costas e um estilo de vida, digamos, mais mente aberta.
Outro amigo também me convidava com frequência para acompanhá-lo em suas sessões de tatuagem. Foi assim que conheci outro tatuador e me tornei presença constante em seu estúdio ao longo de um ano. Desde a infância eu já desenhava, fiz cursos de desenho, me aventurei no universo dos mangás durante a adolescência, e até participei de um concurso mundial de mangá aos dezesseis anos (mas essa é uma história para outro momento). Apesar disso, nunca considerei a possibilidade de me tornar tatuador. Como ainda não trabalhava, muitos amigos sugeriam que eu comprasse uma máquina de tatuagem e começasse, mas essa ideia ainda não me atraía. Preferia expressar minha arte de outras formas. Já havia descartado a antiga ambição de tentar a vida no Japão como desenhista de mangá, então decidi prestar vestibular para o curso de História, sonhando, talvez, em ilustrar livros didáticos.
Para minha surpresa, fui aprovado! Estava prestes a iniciar minha graduação.
Foi na universidade que percebi portas se abrindo de forma extraordinária. Conheci pessoas de diferentes partes do país, tive acesso a bibliografias, temas e visões de mundo que mexeram profundamente com minha mente. Foi também nesse período que conheci o Bisa, minha principal influência no universo da tatuagem.
Nos conhecemos por causa de Raul Seixas. Sim, Raulzito foi o responsável por esse encontro. Sempre fui fã do músico, e havia um grupo de amigos com quem frequentávamos os shows da banda cover que se apresentava regularmente na cidade. Com o tempo, percebemos que um outro grupo também comparecia com frequência, e acabamos fazendo amizade. Eram de Marialva, uma cidade vizinha. Um amigo em comum nos apresentou em um desses eventos, dizendo que eu e o Bisa tínhamos muito em comum, principalmente por ambos desenharmos. E não deu outra: foi amizade à primeira vista. Passamos a noite inteira conversando.
A partir de então, passei a frequentar semanalmente o estúdio dele. Íamos desenhar quadrinhos, conversar, criar. Lembro de noites em que ficávamos desenhando até de madrugada. Fui conhecendo melhor o pessoal de Marialva, todos muito receptivos, e, embora ainda estivesse focado na universidade, comecei a fazer parte da rotina do estúdio. Ainda assim, a ideia de tatuar não me passava pela cabeça, mesmo com muitas pessoas me incentivando.
Foi apenas no terceiro ano da faculdade que algo mudou. Em um dia qualquer, durante o intervalo da manhã, fui tomado por uma súbita vontade de ligar para o Bisa. Acordei-o com minha ligação e anunciei, quase como quem pede permissão: “Quero aprender a tatuar!”
A resposta foi imediata e acolhedora: “Claro que te ensino, é só comprar as maquininhas e bora!”
E assim foi. Com pouco dinheiro, comprei uma maquininha barata, que acabou me acompanhando nos primeiros anos da nova jornada.
Naquele momento, havia também um motivo prático por trás da decisão: dois grandes amigos da faculdade estavam se preparando para viajar ao Peru nas férias de inverno, e me convidaram. O desejo de acompanhá-los era enorme, mas eu me sentia impotente por não ter recursos financeiros para tornar essa tal viagem realidade. Já havia desistido da ideia de trabalhar ilustrando livros e, enquanto a tatuagem me rondava discretamente ao longo dos anos, resolvi, enfim, dar uma chance ao acaso.
E o que começou com um impulso inesperado, revelou-se uma história de sucesso.
Mas esse é um capítulo que deixo para o próximo post.
Até lá, um grande abraço a todos!
Luz, paz, amor, e vida vivida…





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